Palavra da Cá

Este Blog quer partilhar textos literários e nem tanto com vocês.
Vamos trocar poesias, fragmentos e idéias.
Afinal, as palavras nos justificam, não é?
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terça-feira, 16 de junho de 2009

A casa do meu bisavô

Esta noite sonhei com a casa do meu bisavô.
Ela ainda está lá, na mesma esquina, hoje movimentada do centro da cidade, e foi transformada em sede de um jornal (nada é por acaso - afinal, dois dos meus primos, um escritor e outro jornalista, foram praticamente criados naquele quintal coberto de parreiras, o Rubens Luchetti e o Luciano Lepera)
Mas no meu sonho, a casa do meu bisavô estava intacta, como era na minha infância, só que ainda mais mágica. Ficava num terreno muito maior, sombreado de árvores frutíferas que protegiam personagens mansos e amáveis. No sonho, havia lindos bebês louros, adolescentes amorosos, velhos felizes. Foi como uma viagem de resgate ao passado em que eu pudesse reconstruí-lo da forma idealizada que encontramos nos filmes - e nos sonhos.
O pátio fresco de folhas e frutos acolhia-nos cheio de proteção e sossego. E havia uma paz de quem encontra, finalmente, um colo.
A casa do meu bisavô, é claro, está escondidinha aqui no meu inconsciente, com todas as lembranças e os desejos de reparação dos meus afetos.
Mas que beleza os sonhos - neles podemos realizar o que mais nos falta e envergar os desejos como lanças e faróis, abrindo caminho em direção à felicidade.
Que bom sonho. Me acalentou, me deu sossego.

domingo, 17 de maio de 2009

TIRO

Pendurou a esperança no gatilho e puxou. O estampido era mais seco e menos barulhento do que esperava. E não era que nem os filmes que assistia pela tevê. Era muito mais solitário e assustador. Além disso, não tinha música de fundo.
O corpo do moleque magrinho curvou-se para trás e depois foi desmoronando devagar feito um saco vazio. Tombou. Até que fora fácil. Matara o ladrãozinho - e não se sentia herói. Só mais esperto. Depois levou a arma até a mesa e ficou pensando o que fazer nos próximos minutos. Tentou se lembrar dos filmes e ligou para a polícia.
Tinha 18 anos e queria ser engenheiro, como o pai. O vestibular daqui a alguns meses o assustava mais do que o crime que acabara de cometer. Afinal, guerra é guerra, mas esta se ganhava com rapidez, sangue frio e pontaria. A outra, a do vestibular, era imponderável.
O filme do Bruce Willys não saía da cabeça. Ficou esperando a viatura sentado no degrau da frente. Depois, abriu um saco de Doritos e empanturrou o estômago oco. Mais Coca-Cola.
Para a polícia mais tarde, explicou que o moleque invadira a casa armado e que o pai lhe ensinara a atirar. Fins de semana no sítio, latas vazias, como nos filmes. Só então lembrou do celular da família em férias e contou tudo, primeiro pra irmão mais velho que atendeu lá da praia, depois pro pai que o chamou de “meu herói” e resolveu tudo com o delegado, amigo de pôquer.
A perícia examinou um pouco e depois levou o corpo do moleque sem nome. A vizinhança se alvoroçou, mas evitou intimidades. Foi cada um cuidar da vida.
Viu um pouco de televisão, fez um baita sanduíche e se enfiou outra vez nos livros. Vestibular era guerra pra gente grande.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Os Chapéus do Meu Avô

Meu avô tinha três chapéus. Um Panamá claro que sombreava seu rosto gorducho e vermelho, protegendo-o das agruras do verão canicular; um de feltro tom de tabaco, muito metido à inglês, que meu avô ostentava em noitinhas raras e frias; e finalmente, guardado no armário de cedro, um chapéu côco, preto, impossível na vida real. Duvido que jamais o tenha usado. Meu avô tinha dessas coisas – chapéus de cinema e uma certa arrogância própria das barrigas bem sucedidas.
Apesar de viver numa província empoeirada de terra vermelha, envergava um terno de linho 120 branco com a naturalidade dos coronéis tropicais. Jamais vestiu outro traje que não fosse composto pelas calças mambembes e o folgado paletó sobre a camisa impecável. Tudo imaculadamente branco.
No tanque e no ferro de engomar, minha avó ou alguma das pretas que povoavam a cozinha davam conta de traze-los como manda o figurino. Mesmo porque meu avô, apesar de bem humorado e bonachão, era de uma exigência atroz quando se tratava de roupas.
Tinha olhos muito verdes, quase felinos, apreciava bons vinhos, conversas de alpendre e mesa farta, servida por receitas peninsulares. Brodos fumegantes salpicados de massa fresca faziam-no suar a camisa que era trocada várias vezes ao dia.
Ria uma gargalhada estrondosa e amealhava amigos com raro poder de sedução. Além disso, devia ter uma aguda inteligência já que, apesar do pouco estudo, falava fluentemente o francês e lia os filósofos, arrebanhados semanalmente na imensa biblioteca de um amigo advogado.
Era assim o meu avô, promessa de uma vida imigrante e campesina, tornada urbana, quase sofisticada, a poder de muita obstinação. Nascido napolitano, viajara para o Brasil ainda menino e aqui mudara o destino que haviam lhe traçado. Exibia uma letra rebuscada e perfeita em suas volutas e arabescos, qualidade que lhe rendeu a profissão de guarda-livros.
Dormia quatro horas por noite. Madrugada ainda, enfiava-se no terno e metia-se na padaria do compadre Rodrigues logo ali na esquina. A primeira fornada de pãezinhos aspergia seu perfume por todo o quarteirão e ele subia a ladeira com o saco de pão num braço e o Estadão no outro. Devorava ambos com prazer similar.
Tudo que sei do meu avô me foi contado por relatos familiares esparsos ao longo da vida. Guardo fotos em que ele me carrega no colo, encantado com os cachos e as bochechas da única neta que conheceu. Guardo igualmente lembranças daquilo que não vivi, como se o tivesse conhecido íntima e profundamente.
Meu avô, seus chapéus e sua eloqüência acabaram-se prematuramente no fundo de um rio, depois de uma curva matreira que expulsou da estrada de terra o carro e todos os seus ocupantes. Era noite, estava frio e eu, que só tinha um ano, nem pude chorar a morte do meu avô.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

DOMINGOS ANTIGOS

Domingos antigos abrigavam alguns rituais. Um deles era a missa, garantida pela severidade familiar, abrigando as cabecinhas virgens com mantilhas de renda branca e acompanhadas por terços de madrepérola e missal pretinho. Lá íamos nós, boca amarga de jejum forçado, olhos sonados e remelentos, todos os pecados confessados na véspera, receber a eucaristia. Não que entendêssemos perfeitamente o que isso significava. Afinal, mistérios como o da Santíssima Trindade ou da transmutação de hóstia em corpo crístico não eram lá coisas para crianças. De certo e garantido, sabíamos que não podia morder. Pecado mortal. Então engolíamos a delicada partícula de farinha e água com respeito e algum temor.
No mais, havia sempre a promessa do café da manhã. Pão quentinho, manteiga escorrendo pelas bordas, leite gordo de natas, sequilhos, rosquinhas , pão-de- ló, bolo de fubá. Depois, tirar os vestidos de lese e as fitas do cabelo, e rua. Brincar até cansar.
Acreditem jovens leitores, não havia televisão – nem computador, vídeo-cassete, DVD, celular, shopping-center. Sobrevivemos a essa falta com galhardia e, arrisco até, com algumas vantagens. A sobrevivência estava diretamente ligada ao grupo. Brincávamos, jogávamos, aprendíamos na marra a interagir, superar obstáculos, amargar as derrotas, partilhar as vitórias. Crescíamos olhando o outro e dividindo a vida com ele. Amarelinha, pula-sela, bolinha de gude, pique-esconde.
Desconfio que esses territórios lúdicos e dominicais foram responsáveis em grande parte pela formação do caráter de algumas gerações. Alí, entre batalhas de bola e terra, definíamos nossos talentos e aptidões, conquistávamos ou perdíamos espaços preciosos, barganhávamos vantagens, conhecíamos limites físicos e éticos. Dali saíam os craques de futebol, os heróis de briga, os articuladores, os covardes, os sedutores. Quem pisar depois da linha, a mãe não é séria. E ninguém pisava.
Bons domingos em que nos lambuzávamos de pirulitos-puxa de açúcar e picolés de groselha que, em minutos, transferiam o carmim do sorvete para nossas bocas e bochechas. Domingos de árvores, córregos, carrinho de rolemã, bonecas de pano - porque presentes de verdade, só no Natal e aniversário.
Aos adultos eram reservados outros prazeres, como jogar conversa fora sob as árvores do quintal ou em cadeiras enfileiradas na calçada. Conversas de gente grande, em que criança não entrava. Dos adultos também, a prerrogativa inquestionável de comandar nossos prosaicos destinos infantís. “Hora do banho!”, alguém gritava. E acabou-se a brincadeira. Depois, a sopa quente, pijama e cama. Com direito a histórias de avó e cafuné.
Domingos inocentes. Nem melhores, nem piores. Apenas diferentes.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

A ERA DO RÁDIO

Minha avó ouvia novelas pela rádio Nacional. Era religioso – tardes suarentas e silenciosas, cortadas pelos dramas soluçantes que reverberavam nos cômodos vazios. Choro, ranger de dentes e Colgate/Palmolive de quebra, na hora do “reclame”. Donzelas, vilões, galãs incitando a imaginação parva e sonolenta das donas de casa.
Heróis e vilões imaginados - ninguém nunca viu o galã ou pressentiu o rosto da heroína. Sabe-se lá se o mocinho era um nanico desdentado, ou a princesa, uma gordota horrorosa? Ouvindo-os, apenas, imaginávamos um mundo idealizado segundo as fantasias de cada um e alimentados por apitos de trens, passos na calçada, bater de portas e pela música orquestrada ao fundo.
O rádio era, então, um móvel de sala. Imenso, alimentado de válvulas e chiados por trás dos quais tentava-se decifrar a empostada voz dos locutores irradiando notícias no Repórter Esso ou transmitindo futebol numa velocidade absurda. Sem contar os programas musicais, quando se aguçava os ouvidos e as emoções ao som de orquestras de jazz.
Foi pelas ondas do rádio que aprendi a ouvir os agudos de Ângela Maria e os malabarismos vocais de Cauby nas intermináveis tardes de verão – cozinha ladrilhada e alguém batendo um bolo.
Dos programas de auditório, guardo uma lembrança pessoal e um tanto nebulosa. Mas não foi sonho, não. De vestidinho de organdi pinicando meus quatro anos, e um descomunal laço de fita na cabeça, me vi num domingo de manhã no palco da rádio local trinando “Ai lili, ai lili, ailô” com um imenso oco no estômago. Vertigem, calor de rachar. Mas a Célia, que cuidava de mim com o desvelo das mães postiças, aplaudia orgulhosíssima na platéia apertada. Nos seus sonhos mais loucos, eu provavelmente me transformaria numa nova Sapoti.
Mal sabia ela que um dia, não muito distante, a era delicada e sonolenta do rádio se despediria de nossas vidas. Assim como os locutores impostados, os galãs imaginados, as orquestras de jazz – a própria Célia, que iria embora junto com a minha infância.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Goiaba tem bicho

O gemido enjoadinho do gancho da rede no vai e vem da tarde em brasa. Fora isso, silêncio modorrento. Vez em quando, um latido longe, preguiçoso. E nenhum piu de passarinho enfeitando a preguiça.
Lá de cima, a sombra mansa da copa da goiabeira contorna a paisagem, arremata. Espalhada pelo quintal, a velha árvore guarda o cochilo da casa, e mancha que nem onça parda as volutas dos galhos grossos e seguros – ponto de apoio, esconderijo, dente na carne macia, sem medo do bicho. “Bicho de goiaba é goiaba, uai”.
Nem é preciso mais nada, a não ser a adivinhação do tacho lá no fundo, reluzindo ouro no sol da tarde, rasgado nas rebarbas pela pá de madeira mergulhando na polpa madura, buliçosa, escarlate. Tem cheiro esta tarde de goiabeira-goiaba-goiabada. E ele fende as narinas até o coração. Gruda no oco do estômago, antecipando-se doce; alinhava o canteiro de margaridas, o galinheiro, a parede descascada. Nem mesmo o jasmineiro carregado perfuma mais.
Uma alegria danada bulindo os sentidos; pés encardidos, vestido curto, pescoço suado e a certeza absoluta de que os anjos da guarda lá da matriz fogem do altar nestas tardes doces; aqueles gorduchos, lambendo os beiços.
Lá dentro, a cozinha já deve estar limpa e quieta, chão úmido de cera, paninho engomado sobre o fogão. Logo, logo alguém vai bater um bolo, tirar o queijo do guarda-comida e coar café no bule areado. Depois, vai ter burburinho de bocejos e causos em torno da mesa de madeira.
Hora do lanche. Pretexto pra jogar conversa fora, dar risada, implicar.
Na rede sob a goiabeira, estico um pouco mais as frinchas da tarde, prolongo um cochilo fingido até me dobrar de rir com as cócegas e os beijos de vó me chamando.
Não quero virar gente grande, não.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

O Ritmo da Máquina de Costura

Um dos objetos mágicos para me transportar de volta à infância é uma velha máquina de costura "Elna", verde cor de abacate, que até hoje se abre reluzente e operosa sobre a mesa da cozinha da casa da minha tia.
Contando, seguramente, mais de quarenta anos, ela é de uma eficiência e praticidade que faria inveja a muito "design" moderninho. Além de poder ser carregada para todo lado dentro de uma espécie de maleta que, aberta, se encaixa ao corpo da máquina em minutos, a portátil "Elna" transforma idéias e um pouco de dedicação em maravilhas.
De sua afiada agulha já brotaram gerações de vestidos, saias, calcinhas e calções, blusas, blasers e que tais. Conta minha tia — endossada por minha mãe e toda geração antiga da família — que na fidelíssima "Elna" foi costurado o enxoval de duas e de outra dezena de primas e amigas. Meu próprio enxoval de bebê foi cuidadosamente gerado naquele retângulo verde.
Tempo em que se esperava uma criança com a tranqüilidade de noites debruçadas sobre a máquina de costura, recortando linhos, organdís, piquês, babados, intricados pontos "paris" e toda a delicadeza do mundo. Tempo também em que as moças não se vestiam em butiques. Folheavam figurinos garimpando modelos bonitos para serem exibidos na quermesse da igreja ou no "footing" em frente à praça. Outra fonte de inspiração eram as fotos dos filmes em cartaz na cidade. O decote de Rita Hayworth, a saia farta de Doris Day, a cintura de vespa de Ava Gardner. Sonhos transportados diariamente de Hollywood para o interior do Brasil através de uma máquina de costura e, claro, de uma boa dose de talento para a adaptação. Em sua formatura, minha mãe fez questão de uma "Dama das Camélias".
Lá foram ela e minha tia para a porta do cinema estudar detalhadamente o decote da atriz, recortado de camélias brancas que, mais tarde, dariam um tom meio trágico e misterioso ao singelo baile da escola. Se as saias subiam, a "Elna" entrava em ação. Se a cintura descia, recorria-se outra vez à engenhoca. E todo mundo, mesmo com o dinheiro contado, era capaz de fazer bonito numa época em que as mulheres não dispensavam o salto alto, as meias de seda e um "glamour" cheio de drapeados, "tailleurs" e saias justas dos quais morro de inveja.
Fico pensando de onde surgiu esse nome, "Elna", tão misterioso para mim quanto a origem da máquina, que não sei bem se veio da Itália ou da Suiça. A verdade é que sua imagem grudou-se em minha retina e percorre minhas lembranças mais recônditas. Talvez porque, segundo contam, eu, pequenininha, costumava me empoleirar nos ombros dessa santa tia enquanto ela pacientemente costurava. E cantava. Sim, cantar ao fazer algum trabalho mecânico, como costurar, lavar ou passar a roupa é outra tradição da família. E, não me perguntem por que, a música eleita é a antiquíssima "Maringá". Aquela mesma: "Maringá, Maringá/ Desde quando tu partiste/ Tudo aqui ficou tão triste/ Que eu garrei a imaginá...".
Diz a minha tia que, cantando, o serviço fica mais leve e prazeroso. Já experimentei. Funciona. Pois era com sua voz aguda e afinada no coro das "Filhas de Maria" que titia cantava "Maringá", acompanhada pelo ritmo quase silencioso da velha "Elna". Tenho uma saudade quase dolorosa desse tempo. E de um outro tempo que não vivi — apenas sei de ouvir histórias e lamento não ter experimentado. Imagino-me, às vezes, apertada num vestido longo de tafetá, rodopiando ao som de Glenn Miller num daqueles bailes faiscantes de metais e flertes; ou tomando um bonde para a sessão da matinê de cinema; ou ainda sendo cortejada no portão dessas casas com janelas na rua, por um moço "educado e cheio de boas intenções".
Pra falar a verdade, sinto-me às vezes meio traída por não ter pertencido a essa geração pós-guerra, carregada de esperanças, sutilezas, cuidados, segredos bem guardados, casamentos duradouros, homens fortes e masculinos com suas ombreiras e chapéus, mulheres suaves e maternais. Que seja uma grande fantasia. Pouco importa. Olhando hoje para a pequenina "Elna" sobre a cozinha, ou cantando "Maringá" enquanto lavo a louça, penso se não perdemos alguma coisa preciosa no meio do caminho.
Andamos muito, parece, com a modernidade, a tecnologia, a liberação dos costumes, o trabalho feminino remunerado. Pode ser. Mas já não nos permitimos ser a "Dama das Camélias" por uma noite. Cortamos dos nossos filmes pessoais qualquer cena romântica; apressamos e expusemos nossos corpos, antes tão guardados; afiamos nossas "cabecinhas de vento" para enfrentar, competir, esgrimar discursos, antes, só masculinos; esterilizamos nossos úteros com medo de perder o trem da história, veloz, lá fora. Será que somos mais felizes agora?