Palavra da Cá

Este Blog quer partilhar textos literários e nem tanto com vocês.
Vamos trocar poesias, fragmentos e idéias.
Afinal, as palavras nos justificam, não é?
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terça-feira, 4 de agosto de 2009

PALHAÇADAS

Estive fim de semana em Sampa. Bão demais, como sempre. Tirando a neura do trânsito e da bagunça que estão cada vez pior, aquela cidade é o máximo. A melhor do Brasil, sem dúvida. Eu e a Nani fomos ver "Vestido de Noiva" do gênio Nelson Rodrigues, numa montagem belíssima do Gebriel Vilela, com aquele seu universo Barroco, que enche o palco de poesia e criatividade. A Leandra Lea, dando um show. Lindo
A feira do Bexiga é outra coisa gostosa de experimentar nos domingos de manhã. Não sei o que é mais interessante: as peças sendo vendidas nas barraquinha ou os vendedores que, estranhamente, se parecem cada vez mais com antiguidades excêntircas. Eles valem um ensaio fotográfico, uma matéria, sei lá. Ali perto, um grupo de teatro mambembe, na rua, delicioso. Na véspera, fomos ver Vik Muniz no Masp (fantástico) e na entrada, um grupo de palhaços "orintando" o trânsito e desorientando todos os nosso parâmetros caretas. Ser palhaço deve ser a coisa mais gostosa do mundo. Tiramos uma lasquinha deles pra não esquercer mais.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Delícias da Flip

Estivemos um grupo delicioso na Flip, em Paraty. Além das fantásticas figuras literárias que circulam por lá e da encantadora paisagem colonia, ficamos numa pousada, na praia da Almada que é simplesmente o máximo. Pousada Casa Milá. Olha ela aí.

domingo, 28 de junho de 2009

OBRA PRIMA

Gente, não percam de jeito nenhum o documentário 'SANTIAGO" do João Moreira Salles. Êta familinha genial. Trata-se na minha opinião de uma pequena obra prima. Santiago foi o mordomo na Casa da Gávea, dos Moreira Salles durante 20 anos> E em 92, João ainda bem jovem resolveu gravar com Santiago o que seria um documentário, já que o homem era um personagem e tanto. Só que não virou. O material ficou guardado até 2005, quando Santiago já havia morrido e João monta a história do mordomo com rara beleza e sensiblidade. Na verdade, trata-se de um resgate da própria vida do João e de seus irmãos, através das histórias deste personagem riquíssimo e excêntrico que é Sanbtiago. Um desses presentes da vida. Vejam e se deliciem.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Órfãos de Boal

Há uns mil anos mais ou menos, me vi um dia, de repente, com um grande frio na barriga, munida da minha cadernetinha de repórter, entrando no Teatro Eugênio Kusnet, antigo Arena, em São Paulo, onde iria entrevistar o, àquela altura, já famoso Augusto Boal. Ele estava de passagem pelo Brasil para montar algum trabalho. Morava na Europa e já andava pelo mundo espalhando a fecunda semente do seu Teatro do Oprimido e fascinando qualquer cidadão minimamente sensível aos problemas da humanidade.
Passei a tarde vendo seu ensaio e conversando com ele que, como todo gênio, era extremamente doce e humilde diante da minha inexperiência de quase menina, foquinha de redação.
Foi um dos grandes momentos da minha carreira jornalística. E não falo do ponto de vista profissional, apenas. Boal foi um dos entrevistados que acrescentou milhares de pontos à minha vida, à compreensão que eu passei a ter do mundo, aos conceitos que, devagar, iriam construir meu edifício interno.
Naquela tarde chuvosa e tão paulistana, passei a compreender que é possível, sim, transformar sonhos em realidade; é possível e desejável transgredir os limites do razoável e ousar o inesperado, o novo, o arriscado.
Boal ia me contando como nascera o seu projeto, como aos poucos, grupos de comunidades carentes passaram a encenar seus problemas, questões, dores, dúvidas, alegrias e se transformavam em atores da vida, neste grande palco em que ele transformou o mundo, auxiliando pessoas a se tornarem cidadãos; utilizando o teatro como ferramenta de superação e transformação.
E eu ia mergulhando em suas palavras, embevecida. Apaixonei-me. Não pelo homem, que já me parecia então uma mistura de anjo e missionário com aquela basta cabeleira e olhos de quem acredita. Apaixonei-me pelo ator, diretor, cidadão, companheiro. Adivinhei naquele momento todas as possibilidades que se abriam para a minha própria vida, então tão iniciante.
Sai daquele teatro agradecida, como aconteceu algumas vezes, por tamanho presente.
Esta semana, Boal nos deixou e senti-me um pouco órfã, um pouco viúva, mais sozinha. Pessoas como ele são cada vez mais raras neste mundo tão higienizado, inidividualizado, mercantilizado, ausente, sem compromissos. Li no jornal uma linda entrevista que concedeu pouco antes de morrer. Nada mudara. Seus ideais e sua atividade mantiham-se inteiros e emraizados, espalhados pelo mundo, alcançando os lugares mais distantes do planeta, multiplicando-se em outros grupos, em mais idéias, agora levados adiante por seu filho e discípulo.
Chorei pelo adeus do Boal, por nós, tão pobres e incapazes longe dele.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

TEXTOS NEM TÃO NOVOS ASSIM E UM PRESENTE DO FREI BETTO

O Lau, amigo atento, me deu uma bronca carinhosa pelo abandono em que andava este blog. Com razão. Enviou-me sugestões: textos meus, já publicados em jornal, mas que considera atuais (com o que concordo) e um belíssimo texto do Frei Betto (redundància) - presente e ensinamento para todos nós. Aí vão:

ENSINA TEU FILHO - FREI BETTO (publicado no Estadão)

Ensina a teu filho que o Brasil tem jeito e que ele deve crescer feliz por ser brasileiro. Há neste país juízes justos, ainda que esta verdade soe como cacófato. Juízes que, como meu pai, nunca empregaram familiares, embora tivessem filhos advogados, jamais fizeram da função um meio de angariar mordomias e, isentos, deram ganho de causa também a pobres, contrariando patrões gananciosos ou empresas que se viram obrigadas a aprender que, para certos homens, a honra é inegociável.
Ensina a teu filho que neste país há políticos íntegros como Antônio Pinheiro, pai do jornalista Chico Pinheiro, que revelou na mídia seu contracheque de parlamentar e devolveu aos cofres públicos jetons de procedência duvidosa.
Saiba o teu filho que, no monolito preto do Banco Central, em Brasília, onde trabalham cerca de 3 mil pessoas, a maioria é honrada e, porque não é cega, indignada ante maracutaias de autoridades que deveriam primar pela ética no cargo que lhes foi confiado.
Ensina a teu filho que não ter talento esportivo ou rosto e corpo de modelo, e sentir-se feio diante dos padrões vigentes de beleza, não é motivo para ele perder a auto-estima. A felicidade não se compra nem é um troféu que se ganha vencendo a concorrência. Tece-se de valores e virtudes e desenha, em nossa existência, um sentido pelo qual vale a pena viver e morrer.
Ensina a teu filho que o Brasil possui dimensões continentais e as mais férteis terras do planeta. Não se justifica, pois, tanta terra sem gente e tanta gente sem terra. Assim como a libertação dos escravos tardou, mas chegou, a reforma agrária haverá de se implantar. Tomara que regada com muito pouco sangue.
Saiba o teu filho que os sem-terra que ocupam áreas ociosas e prédios públicos são, hoje, chamados de "bandidos", como outrora a pecha caiu sobre Gandhi sentado nos trilhos das ferrovias inglesas e Luther King ocupando escolas vetadas aos negros.
Ensina a teu filho que pioneiros e profetas, de Jesus a Tiradentes, de Francisco de Assis a Nelson Mandela, são invariavelmente tratados, pela elite de seu tempo, como subversivos, malfeitores, visionários.
Ensina a teu filho que o Brasil é uma nação trabalhadora e criativa. Milhões de brasileiros levantam cedo todos os dias, comem aquém de suas necessidades e consomem a maior parcela de sua vida no trabalho, em troca de um salário que não lhes assegura sequer o acesso à casa própria. No entanto, essa gente é incapaz de furtar um lápis do escritório, um tijolo da obra, uma ferramenta da fábrica. Sente-se honrada por não descer ao ralo que nivela bandidos de colarinho branco com os pés-de-chinelo. É gente feita daquela matéria-prima dos lixeiros de Vitória que entregaram à polícia sacolas recheadas de dinheiro que assaltantes de banco haviam escondido numa caçamba.
Ensina teu filho a evitar a via preferencial dessa sociedade neoliberal que nos tenta incutir que ser consumidor é mais importante que ser cidadão, incensa quem esbanja fortuna e realça mais a estética que a ética.
Saiba o teu filho que o Brasil é a terra de índios que não se curvaram ao jugo português e de Zumbi, de Angelim e frei Caneca, de madre Joana Angélica e Anita Garibaldi, dom Hélder Câmara e Chico Mendes.
Ensina a teu filho que ele não precisa concordar com a desordem estabelecida e que será feliz se unir àqueles que lutam por transformações sociais que tornem este país livre e justo. Então, ele transmitirá a teu neto o legado de tua sabedoria.
Ensina teu filho a votar com consciência e jamais ter nojo de política, pois quem age assim é governado por quem não tem e, se a maioria tiver a mesma reação, será o fim da democracia. Que o teu voto e o dele sejam em prol da justiça social e dos direitos dos brasileiros imerecidamente tão pobres e excluídos, por razões políticas, dos dons da vida.
Ensina a teu filho que a uma pessoa bastam o pão, o vinho e um grande amor. Cultiva nele os desejos do espírito. Saiba o teu filho escutar o silêncio, reverenciar as expressões de vida e deixar-se amar por Deus que o habita.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Sobre Páscoas

Quando crianças, adivinhamos orelhas e bigodinhos por trás das moitas do jardim. Depois nos lambuzamos de alegria, certos de que a vida é uma grande surpresa de chocolate a nos acolchoar a alma. Aos poucos, vamos descobrindo que ovos de Páscoa também podem ser vazios, ocos como quase toda ilusão de permanência.
Ovos de chocolate também acabam; desmancham-se, sorvidos pela voracidade e a gulodice da juventude. Às vezes acreditamos que a felicidade se encontra em ovos de Páscoa. Que nada – só um breve instante de viscoso prazer.
Mas existe doçura e gostosura dentro de nós. Nesta alminha esquecida pelos anúncios de publicidade; neste pedaço que não se mostra nas vitrines. É lá que podemos buscar o doce da vida. Em pequenas gotas – como convém aos sábios, aqueles que conhecem a paciência, a delicadeza e a inutilidade das grandes expectativas.

sexta-feira, 6 de março de 2009

O ESTADÃO

Assino o Estadão há décadas, depois da fase Folha. E explico por que: Porque é mais jornal, mais bem feito, com texto e reportagens muito melhores. A Folha, depois da famosa reformulação em que tirou da redação as melhores cabeças do país e colocou nas editorias um monte de focas petulantes, adotou alguns princípios, em minha opinião, no mínimo duvidosos. Um deles, o Manual de Redação que transformou bons textos e estilo em parágrafos milimetrados e pobres, para dizer o mínimo. Quem gosta de bom texto, torce o nariz. E como disse certa vez o grande Alberto Dines, jornal é pra quem gosta de ler. Fazer jornal para agradar a moçadinha que não sabe ler, com 10 retrancas e 5 infográficos por matéria - além de um texto pobre e pouco profundo- é um desrespeito ao velho e bom jornalismo impresso. A televisão e a internet estão aí pra quem engole pílulas rápidas e indolores. Salve a (tímida) volta do jornalismo literário em iniciativas como a Piauí.
Pois bem, com tudo isso, eu andava desanimada com o time de cronistas do Estadão - pesado, redundante, chatinho mesmo. E não é que deram uma chacoalhada na equipe de cronistas e colunistas, com um grupo de tirar o chapéu? Leio-os diariamente com enorme prazer - dos novos, como Antonio Prata, Vanessa Bárbara e Fred Mello Paiva, aos textos maduros e encorpados de Lúcia Guimarães e Milton Hatoun. Isso só pra citar alguns.
Ler essa moçada, principalmente, me dá um novo alento. Esses escritores da geração da minha filha são uma clara demonstração de que há vida inteligente no planeta. E melhor: com outros códigos e uma adrenalina invejável. Parabéns, Estadão.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Allen em Barcelona

Olá amiguinhos, mais cinema: fui ver Vick, Cristina, Barcelona, do delicioso Woody Allen e como não poderia deixar de ser ele se torna a cada dia um contador de histórias mais sedutor e eficiente.
As histórias em si são comuns, de gente como nós, que estão aí na vida pra ser feliz, se atropelando, mas tentando, tentando. O jeito de contar uma história, pórém, é que são elas. Este é o segredo de todas as Sherazades, os vocacionados para a narrativa, como é caso do cineasta.
Numa ensolarada e belíssima Barcelona - que ele explora com olhar poético e vibrante-, casais se encontram e desencontram - desta vez com uma pontinha de homenagem a Almodovar, nas cenas pateticamente passionais protagonizadas pela espanhola Penélope Cruz.
Delícia de lavar a alma. Beijos

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

A dor de ser humano

Então, falávamos de cinema e é preciso um espaço especialíssimo para o último trabalho do Sam Mendes e da incrível Kate Winslet, "Foi apenas um sonho" . A começar pelo título em inglês, (Revolutionary Road), de uma ironia fina, própria do diretor. De revolucionária aquela vida não tem nada - assim como não tem a maioria de nossas medíocres e ilusórias existências. E é disso que o filme fala- com o brilho que o diretor já mostrara em Beleza Americana. Trata-se de uma
implacável reflexão sobre o vazio que nos acompanha do nascimento à morte e que tentamos desesperadamente preencher consumindo sonhos materiais, afetivos, sociais, profissionais, religiosos ou seja lá qual for. A casa de subúrbio (ou de condomínio, no Brasil), os filhinhos lindos, a carreira bem sucedida, a esperança da viagem fantástica e, o pior: a certeza de que somos brilhantes, diferentes, especiais- mas que nem mesmo assim conseguimos nos livrar do "vazio sem esperança" que nos acompanha, como define o perosnagem mais lúcido da história ( o "louco", como não poderia deixar de ser).
Acho que muita gente vai torcer o bico para o filme. Afinal, não é todo mundo que encara o monstro de frente e aprende (pelo menos um pouquinho) a lidar com a impotência de saber-se humano apenas - com todas as impossibilidades que isso acarreta. Para esta turma- que continua a acreditar que o carro do ano, ou a tese de doutorado, ou o salário de executivo ou o "grande amor da minha vida" são receitas de felicidade- o filme pode parecer "chato" ou "pesado". Na minha modesta opinião, o Sam Mendes é gênio. E sabe como poucos falar com sutileza e elegância dessa dor que nos pertence inevitavelmente.
Beijos

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Um Carnaval cinematográfico

Terça-feira gordíssima, sem grandes possibilidades, a não ser as que nos justificam sempre: cinema, leitura da boa e gente de qualidade.
Pois bem, confirmei nos últimos dias que ainda se faz excelente cinema nos EUA. O Curioso Caso de Benjamim Buttom é cinema de primeira, com a qualidade adicional de escolher o caminho da delicadeza, dos encontros sutis, da economia elegante para reescrever essa história fascinante. Sem falar no Brad cavalgando naquela moto, que aí também já é covardia.
A Troca, outro exemplo de que a família Pitt/Jolie não está pra brincadeira, também emociona com uma história verídica daquelas improváveis de tão absurda e com a fantástica interpretação de Angelina Jolie,como sempre dando banho.
Slumdog Millionaire - delicioso, pungente, emocionante. Uma curiosa e bem sucedida mistura de Cidade de Deus com conto de fadas bollywoodiano. Adorei.
Operação Walquíria vale pela história, pela boa direção e excelente casting - apesar do esforçado Tom Cruise.
Exceção para Austrália (Argh!), uma sucessão de equívocos, da direção ao trabalho dos atores. Insosso, inodoro e incolor, apesar da estupenda paisagem, dos figurinos impecáveis da linda Nicole Kidman ( que não faz juz ao seu talento) e daquele monumento do Hugh Jackman que, por sinal, deu um show à parte na apresentação do Oscar. Mostrou que não é só bonito - canta muitíssimo bem e dança como gente grande. Bem, já é mais que a maioria.

Quanto às leitura, tenho descoberto (meio tarde, eu sei) o português Lobo Antunes. Vale abrir suas páginas. Assim como há alguns anos abri as do moçambicano Mia Couto e nunca mais fechei. Agora falta chegar no angolano Agualuza - ou seja, nosso idiomazinho complicado tem bastado para encher os olhos e o coração de alegria.

Como se vê, Carnaval também é bom para os não-foliões de carteirinha.